A Sustentabilidade da Igreja Católica frente aos dados do censo religioso

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(Por Adilson Souza, MSc)

Introdução

Dados do Censo Demográfico no Brasil

Os dados históricos do Censo Demográfico e as análises eclesiais divulgados nos últimos meses revelam profundas mudanças no cenário religioso brasileiro. A Igreja Católica, predominantemente presente na formação social e espiritual do país, vive um tempo de desafios pastorais, econômicos e vocacionais. Este artigo, com as abordagens e linguagens pastoral e de gestão, busca iluminar caminhos possíveis para guiar a sustentabilidade e a perenidade da missão, especialmente à luz dos indicadores do Censo 2022/IBGE (divulgados em 2025), do Instituto de Estudos da Religião (ISER, 2021), da normativa civil do país e outras informações que dão suporte ao contexto aqui apresentado. 

Cabe salientar que os dados divulgados pelo IBGE são macros e que, após a disponibilização dos microdados (prevista para os próximos meses), será ainda mais plausível e efetivo um entendimento com maior riqueza de detalhes sobre a religiosidade do país e suas interferências.  

Também, vale destacar que os dados do Censo são muitas vezes contestados, sob a alegação de que “nem todos são pesquisados”, ou dizendo que, “não é possível que os números estejam corretos, pois na ‘minha’ Igreja, as missas estão sempre cheias”, ou ainda, “nas comunidades do Rio de Janeiro, por exemplo, ninguém consegue entrar, assim, como garantir que estas informações estão corretas?”. Deve-se levar em conta,, quanto a estes pontos e outros similares que perpassam as discussões sobre o assunto que, mesmo sob uma ‘confiança desconfiada’, a apuração e o tratamento estatístico dos dados seguem uma metodologia aprofundada e séria, derivando desta cientificidade, a possibilidade de aferir os resultados, incluindo as famílias porventura não respondentes. 

E o desafio que temos que enfrentar e, de forma crítica, conviver e buscar entender a realidade que se descortina – mesmo que não sejam consideradas verdades absolutas -, é aprofundarmos nos inúmeros dados e informações que se apresentam e, ceticamente, trabalhar com esses para vislumbrar potenciais caminhos, tendências e aspectos complexos da realidade de um povo e seus costumes, sociais, religiosos, culturais, acadêmicos etc. 

Alguns dados relevantes

Este material apresenta alguns pontos em destaque no Censo e comentados a seguir, que ajudam a iluminar o entendimento e a capacidade de interação entre os diversos atores, bem como a disposição na elaboração e execução de estratégias que auxiliem a perenidade e sustentabilidade da Igreja Católica no Brasil.

Uniões consensuais

 

Dentre os dados pesquisados e analisados, a união entre os casais, que afeta diretamente o contexto social das famílias, e sua participação ou risco de ausência na Igreja, mostra uma variação representativa no decorrer dos últimos 22 anos, conforme demonstram os resultados do censo dos anos 2000, 2010 e 2022.

Essas transformações sociais e culturais percebidas e vivenciadas nas famílias, podem afetar diretamente a ação evangelizadora a partir das famílias ou no contexto de evangelização dessas famílias.

Os dados mostram que o percentual de casamentos civis e religiosos vem sofrendo uma queda constante no período analisado (Gráfico 1), tendo sido ultrapassado pelas uniões consensuais, pela primeira vez, no censo de 2022, recentemente apresentado pelo IBGE, no mês de novembro/25. Enquanto a natureza da união ‘casamentos civis e religiosos’ mostrava um percentual de 37,9 no país, a ‘união consensual’ tinha 38,9% da população pesquisada, portanto, 1% acima.

 

Um outro dado dentro deste mesmo enfoque de ‘natureza da união’, apresenta, na análise do censo sob o ponto de vista do futuro da comunidade católica, um resultado nada animador (Gráfico 2), pois, dentre os próprios católicos, a união consensual (40,9%) supera os casamentos realizados no civil e religioso (40%). Para efeitos comparativos, esta mesma análise, quando feita no âmbito evangélico, mostra o percentual de pessoas casadas no civil e religioso (40,9%) acima da união consensual (28,7%) no público que se declara nessa confissão, ou seja, com uma diferença muito acima do que se vê no contexto católico. 

 

Conforme se percebe nos gráficos oriundos do Censo/2022 (IBGE), tal situação se mostra um grande desafio para a Igreja católica e suas diretrizes pastorais diocesanas, a serem implementadas pelas Igrejas particulares, inclusive norteadas pelas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil – DGAE (finalizadas na assembleia geral da CNBB no último mês de abril). Ou seja, temos, face ao cenário – ou aos elementos de cenários expostos -, que o aumento das uniões informais, as novas configurações familiares e a pluralidade religiosa que já se faz presente (e será detalhada ainda neste texto), exigem uma Igreja cada vez mais acolhedora e missionária. Uma Igreja verdadeiramente em saída, como sempre clamava o Papa Francisco, mas uma Igreja que também reveja as suas entradas, às vezes emperradas ou estreitas – no sentido do impedimento ou, por analogia, às barreiras tarifárias das alfândegas que também era um termo invocado por Francisco frente ao nosso fechamento àquele que nos é diverso – na forma de acolher aqueles que se mostram diferentes ou permeados de questões ainda não trabalhadas ou encaradas de forma misericordiosa, audaciosa e transformadora por muitos de nós. 

Qual é a chave, qual é o segredo, como dito na melodia, para abrir o nosso coração e acompanhar essas realidades com sabedoria, amor e discernimento, fortalecendo vínculos e oferecendo caminhos de integração comunitária e evangelizadora? 

 

[Continua]

Sobre o autor (Adilson Souza, MSc):

Teólogo e Matemático, Mestre em Engenharia e Especialista em Gestão e Prospectiva Estratégica. Consultor Organizacional Sênior. Curso Gestão dos Bens Eclesiásticos – Livro V Código de Direito Canônico (Pontifícia Universitá Lateranense/Itália). Professor de Pós-Graduação: Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA) e Faculdade Vicentina de Curitiba (FAVI); Professor de Graduação:  UIT/Itaúna. Assessor do Curso de Gestão e Governança, em Roma. Diácono Permanente da Diocese de Divinópolis/MG.

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FONTE IMAGENS: Unsplash

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