{"id":30622,"date":"2020-10-05T08:37:13","date_gmt":"2020-10-05T11:37:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.axisinstituto.com.br\/blog\/?p=30622"},"modified":"2020-10-05T08:37:15","modified_gmt":"2020-10-05T11:37:15","slug":"publicada-fratelli-tutti-a-enciclica-social-do-papa-francisco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.axisinstituto.com.br\/blog\/publicada-fratelli-tutti-a-enciclica-social-do-papa-francisco\/","title":{"rendered":"Publicada \u201cFratelli tutti\u201d, a Enc\u00edclica social do Papa Francisco"},"content":{"rendered":"\n
Quais s\u00e3o os grandes ideais mas tamb\u00e9m os caminhos concretos para aqueles que querem construir um mundo mais justo e fraterno nas suas rela\u00e7\u00f5es quotidianas, na vida social, na pol\u00edtica e nas institui\u00e7\u00f5es? Esta \u00e9 a pergunta \u00e0 qual pretende responder, principalmente, \u201cFratelli tutti\u201d: o Papa define-a como uma “Enc\u00edclica Social” (6) que toma o seu t\u00edtulo das “Admoesta\u00e7\u00f5es” de S\u00e3o Francisco de Assis, que usava essas palavras “para se dirigir a todos os irm\u00e3os e irm\u00e3s e lhes propor uma forma de vida com sabor do Evangelho” (1). A Enc\u00edclica tem como objetivo promover uma aspira\u00e7\u00e3o mundial \u00e0 fraternidade e \u00e0 amizade social. No pano de fundo, h\u00e1 a pandemia da Covid-19 que – revela Francisco – “irrompeu de forma inesperada quando eu estava escrevendo esta carta”. Mas a emerg\u00eancia sanit\u00e1ria global mostrou que “ningu\u00e9m se salva sozinho” e que chegou realmente o momento de “sonhar como uma \u00fanica humanidade”, na qual somos “todos irm\u00e3os”. (7-8).<\/p>\n\n\n\n
No primeiro de oito cap\u00edtulos, intitulado “As sombras dum mundo fechado”,<\/em> o documento debru\u00e7a-se sobre as muitas distor\u00e7\u00f5es da \u00e9poca contempor\u00e2nea: a manipula\u00e7\u00e3o e a deforma\u00e7\u00e3o de conceitos como democracia, liberdade, justi\u00e7a; o ego\u00edsmo e a falta de interesse pelo bem comum; a preval\u00eancia de uma l\u00f3gica de mercado baseada no lucro e na cultura do descarte; o desemprego, o racismo, a pobreza; a desigualdade de direitos e as suas aberra\u00e7\u00f5es como a escravatura, o tr\u00e1fico de pessoas, as mulheres subjugadas e depois for\u00e7adas a abortar, o tr\u00e1fico de \u00f3rg\u00e3os (10-24). Estes s\u00e3o problemas globais que requerem a\u00e7\u00f5es globais, sublinha o Papa, apontando o dedo tamb\u00e9m contra uma “cultura de muros” que favorece a prolifera\u00e7\u00e3o de m\u00e1fias, alimentadas pelo medo e pela solid\u00e3o (27-28).<\/p>\n\n\n\n A muitas sombras, por\u00e9m, a Enc\u00edclica responde com um exemplo luminoso, o do bom samaritano, a quem \u00e9 dedicado o segundo cap\u00edtulo, “Um estranho no caminho”<\/em>. Nele, o Papa assinala que, numa sociedade doente que vira as costas \u00e0 dor e \u00e9 “analfabeta” no cuidado dos mais fr\u00e1geis e vulner\u00e1veis (64-65), somos todos chamados a estar pr\u00f3ximos uns dos outros (81), superando preconceitos e interesses pessoais. De fato, todos n\u00f3s somos correspons\u00e1veis na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade que saiba incluir, integrar e levantar aqueles que sofrem (77). O amor constr\u00f3i pontes e n\u00f3s “somos feitos para o amor” (88), acrescenta o Papa, exortando em particular os crist\u00e3os a reconhecerem Cristo no rosto de cada pessoa exclu\u00edda (85). O princ\u00edpio da capacidade de amar segundo “uma dimens\u00e3o universal” (83) \u00e9 tamb\u00e9m retomado no terceiro cap\u00edtulo, “Pensar e gerar um mundo aberto”: nele, Francisco exorta cada um de n\u00f3s a “sair de si mesmo” para encontrar nos outros “um acrescentamento de ser” (88), abrindo-nos ao pr\u00f3ximo segundo o dinamismo da caridade que nos faz tender para a “comunh\u00e3o universal” (95). Afinal \u2013 recorda a Enc\u00edclica – a estatura espiritual da vida humana \u00e9 medida pelo amor que nos leva a procurar o melhor para a vida do outro (92-93). O sentido da solidariedade e da fraternidade nasce nas fam\u00edlias que devem ser protegidas e respeitadas na sua “miss\u00e3o educativa prim\u00e1ria e imprescind\u00edvel” (114).<\/p>\n\n\n\n O direito a viver com dignidade n\u00e3o pode ser negado a ningu\u00e9m, afirma ainda o Papa, e uma vez que os direitos s\u00e3o sem fronteiras, ningu\u00e9m pode ser exclu\u00eddo, independentemente do local onde nasceu (121). Deste ponto de vista, o Papa lembra tamb\u00e9m que \u00e9 preciso pensar numa “\u00e9tica das rela\u00e7\u00f5es internacionais” (126), porque cada pa\u00eds \u00e9 tamb\u00e9m do estrangeiro e os bens do territ\u00f3rio n\u00e3o podem ser negados \u00e0queles que t\u00eam necessidade e v\u00eam de outro lugar. O direito natural \u00e0 propriedade privada ser\u00e1, portanto, secund\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio do destino universal dos bens criados (120). A Enc\u00edclica tamb\u00e9m coloca uma \u00eanfase espec\u00edfica na quest\u00e3o da d\u00edvida externa: embora se mantenha o princ\u00edpio de que toda a d\u00edvida legitimamente contra\u00edda deve ser paga, espera-se, no entanto, que isto n\u00e3o comprometa o crescimento e a subsist\u00eancia dos pa\u00edses mais pobres (126).<\/p>\n\n\n\n Ao tema das migra\u00e7\u00f5es \u00e9, ao inv\u00e9s, dedicado em parte o segundo e todo o quarto cap\u00edtulo, “Um cora\u00e7\u00e3o aberto ao mundo inteiro”<\/em>: com as suas “vidas dilaceradas” (37), em fuga das guerras, persegui\u00e7\u00f5es, cat\u00e1strofes naturais, traficantes sem escr\u00fapulos, arrancados das suas comunidades de origem, os migrantes devem ser acolhidos, protegidos, promovidos e integrados. Nos pa\u00edses destinat\u00e1rios, o justo equil\u00edbrio ser\u00e1 entre a prote\u00e7\u00e3o dos direitos dos cidad\u00e3os e a garantia de acolhimento e assist\u00eancia aos migrantes (38-40). Especificamente, o Papa aponta algumas “respostas indispens\u00e1veis” especialmente para aqueles que fogem de “graves crises humanit\u00e1rias”: incrementar e simplificar a concess\u00e3o de vistos; abrir corredores humanit\u00e1rios; oferecer alojamento, seguran\u00e7a e servi\u00e7os essenciais; oferecer possibilidade de trabalho e forma\u00e7\u00e3o; favorecer a reunifica\u00e7\u00e3o familiar; proteger os menores; garantir a liberdade religiosa. O que \u00e9 necess\u00e1rio acima de tudo” – l\u00ea-se no documento -, \u00e9 uma legisla\u00e7\u00e3o (go\u00advernance) <\/em>global para as migra\u00e7\u00f5es que inicie projetos a longo prazo, indo al\u00e9m das emerg\u00eancias individuais, em nome de um desenvolvimento solid\u00e1rio de todos os povos (129-132).<\/p>\n\n\n\n O tema do quinto cap\u00edtulo \u00e9 “A pol\u00edtica melhor”, ou seja, a que representa uma das formas mais preciosas da caridade porque est\u00e1 ao servi\u00e7o do bem comum (180) e conhece a import\u00e2ncia do povo, entendido como uma categoria aberta, dispon\u00edvel ao confronto e ao di\u00e1logo (160). Este \u00e9 o popularismo indicado por Francisco, que se contrap\u00f5e ao “populismo” que ignora a legitimidade da no\u00e7\u00e3o de “povo”, atraindo consensos a fim de instrumentalizar ao servi\u00e7o do seu projeto pessoal (159). Mas a melhor pol\u00edtica \u00e9 tamb\u00e9m a que protege o trabalho, “uma dimens\u00e3o indispens\u00e1vel da vida social” e procura assegurar que cada um tenha a possibilidade de desenvolver as suas pr\u00f3prias capacidades (162). A verdadeira estrat\u00e9gia contra a pobreza, afirma a Enc\u00edclica, n\u00e3o visa simplesmente a conter os necessitados, mas a promov\u00ea-los na perspectiva da solidariedade e da subsidiariedade (187). A tarefa da pol\u00edtica, al\u00e9m disso, \u00e9 encontrar uma solu\u00e7\u00e3o para tudo o que atenta contra os direitos humanos fundamentais, tais como a exclus\u00e3o social; tr\u00e1fico de \u00f3rg\u00e3os, e tecidos humanos, armas e drogas; explora\u00e7\u00e3o sexual; trabalho escravo; terrorismo e crime organizado. Forte o apelo do Papa para eliminar definitivamente o tr\u00e1fico de seres humanos, “vergonha para a humanidade”, e a fome, porque \u00e9 “criminosa” porque a alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 “um direito inalien\u00e1vel” (188-189).<\/p>\n\n\n\n A pol\u00edtica da qual h\u00e1 necessidade, sublinha ainda Francisco, \u00e9 aquela centrada na dignidade humana e que n\u00e3o est\u00e1 sujeita \u00e0 finan\u00e7a porque “o mercado por si s\u00f3, n\u00e3o resolve tudo”: os “estragos” provocados pela especula\u00e7\u00e3o financeira mostraram-no (168). Assumem, portanto, particular relev\u00e2ncia os movimentos populares: verdadeiros “torrentes de energia moral”, devem ser envolvidos na sociedade, de uma forma coordenada. Desta forma – afirma o Papa -, pode-se passar de uma pol\u00edtica “para” os pobres para uma pol\u00edtica “com” e “dos” pobres (169). Outro desejo presente na Enc\u00edclica diz respeito \u00e0 reforma da ONU: perante o predom\u00ednio da dimens\u00e3o econ\u00f4mica, de fato, a tarefa das Na\u00e7\u00f5es Unidas ser\u00e1 dar uma real concretiza\u00e7\u00e3o ao conceito de “fam\u00edlia de na\u00e7\u00f5es”, trabalhando para o bem comum, a erradica\u00e7\u00e3o da pobreza e a prote\u00e7\u00e3o dos direitos humanos. Recorrendo incansavelmente \u00e0 “negocia\u00e7\u00e3o, aos mediadores e \u00e0 arbitragem” – afirma o documento pontif\u00edcio – a ONU deve promover a for\u00e7a da lei sobre a lei da for\u00e7a (173-175).<\/p>\n\n\n\n Do sexto cap\u00edtulo, “Di\u00e1logo e amizade social”, emerge tamb\u00e9m o conceito de vida como “a arte do encontro” com todos, tamb\u00e9m com as periferias do mundo e com os povos originais, porque “de todos se pode aprender alguma coisa, nin\u00adgu\u00e9m \u00e9 in\u00fatil, ningu\u00e9m \u00e9 sup\u00e9rfluo” (215). Particular, ent\u00e3o, a refer\u00eancia do Papa ao “milagre da amabilidade”, uma atitude a ser recuperada porque \u00e9 “uma estrela na escurid\u00e3o” e uma “liberta\u00e7\u00e3o da crueldade, da ansiedade que n\u00e3o nos deixa pensar nos outros, da urg\u00eancia distra\u00edda” que prevalecem em \u00e9poca contempor\u00e2nea (222-224). Reflete sobre o valor e a promo\u00e7\u00e3o da paz, o s\u00e9timo cap\u00edtulo, intitulado “Percursos dum novo encontro”, no qual o Papa sublinha que a paz \u00e9 “proativa” e visa formar uma sociedade baseada no servi\u00e7o aos outros e na busca da reconcilia\u00e7\u00e3o e do desenvolvimento m\u00fatuo. A paz \u00e9 uma “arte” em que cada um deve desempenhar o seu papel e cuja tarefa nunca termina (227-232). Ligado \u00e0 paz est\u00e1 o perd\u00e3o: devemos amar todos sem exce\u00e7\u00e3o – l\u00ea-se na Enc\u00edclica -, mas amar um opressor significa ajud\u00e1-lo a mudar e n\u00e3o permitir que ele continue a oprimir o seu pr\u00f3ximo (241-242). Perd\u00e3o n\u00e3o significa impunidade, mas justi\u00e7a e mem\u00f3ria, porque perdoar n\u00e3o significa esquecer, mas renunciar \u00e0 for\u00e7a destrutiva do mal e da vingan\u00e7a. Nunca esquecer “horrores” como a Shoah, os bombardeamentos at\u00f3micos em Hiroshima e Nagasaki, persegui\u00e7\u00f5es e massacres \u00e9tnicos – exorta o Papa – devem ser sempre recordados, novamente, para n\u00e3o nos anestesiarmos e manterem viva a chama da consci\u00eancia coletiva. E tamb\u00e9m \u00e9 importante fazer mem\u00f3ria do bem. (246-252).<\/p>\n\n\n\n Parte do s\u00e9timo cap\u00edtulo se det\u00e9m, ent\u00e3o, sobre a guerra: “uma amea\u00e7a constante”, que representa a “nega\u00e7\u00e3o de todos os direitos”, “o fracasso da pol\u00edtica e da humanidade”, “a vergonhosa rendi\u00e7\u00e3o \u00e0s for\u00e7as do mal”. Al\u00e9m disso, devido \u00e0s armas nucleares, qu\u00edmicas e biol\u00f3gicas que afetam muitos civis inocentes, hoje j\u00e1 n\u00e3o podemos pensar, como no passado, numa poss\u00edvel “guerra justa”, mas temos de reafirmar fortemente “Nunca mais a guerra! A elimina\u00e7\u00e3o total das armas nucleares \u00e9 “um imperativo moral e humanit\u00e1rio”; em vez disso – sugere o Papa – com o dinheiro do armamento deveria ser criado um Fundo Mundial para acabar de vez com a fome (255-262). Francisco expressa uma posi\u00e7\u00e3o igualmente clara sobre a pena de morte: \u00e9 inadmiss\u00edvel e deve ser abolida em todo o mundo. “O homicida n\u00e3o perde a sua dignidade pessoal – escreve o Papa \u2013 e o pr\u00f3prio Deus Se constitui seu garante” (263-269). Ao mesmo tempo, a necessidade de respeitar “a sacralidade da vida” (283) \u00e9 reafirmada onde “partes da humanidade parecem sacrific\u00e1veis “, tais como os nascituros, os pobres, os deficientes, os idosos (18).<\/p>\n\n\n\n No oitavo e \u00faltimo cap\u00edtulo, o Pont\u00edfice se det\u00e9m sobre “Religi\u00f5es ao servi\u00e7o da fraternidade no mundo” e reitera que o terrorismo n\u00e3o se deve \u00e0 religi\u00e3o, mas a interpreta\u00e7\u00f5es erradas de textos religiosos, bem como a pol\u00edticas de fome, pobreza, injusti\u00e7a e opress\u00e3o (282-283). Um caminho de paz entre a religi\u00f5es \u00e9, portanto, poss\u00edvel; por isso, \u00e9 necess\u00e1rio garantir a liberdade religiosa, direito humano fundamental para todos os crentes (279). Uma reflex\u00e3o, em particular, a Enc\u00edclica faz sobre o papel da Igreja: ela n\u00e3o relega a sua miss\u00e3o \u00e0 esfera privada e, embora n\u00e3o fazendo pol\u00edtica, n\u00e3o renuncia \u00e0 dimens\u00e3o pol\u00edtica da exist\u00eancia, \u00e0 aten\u00e7\u00e3o ao bem comum e \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o pelo desenvolvimento humano integral, segundo os princ\u00edpios evang\u00e9licos (276-278).<\/p>\n\n\n\n Enfim, Francisco cita o “Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da conviv\u00eancia comum”, assinado por ele mesmo em 4 de fevereiro de 2019 em Abu Dhabi, junto com o Grande Im\u00e3 de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyib: desta pedra miliar do di\u00e1logo inter-religioso, o Pont\u00edfice retoma o apelo para que, em nome da fraternidade humana, o di\u00e1logo seja adoptado como caminho, a colabora\u00e7\u00e3o comum como conduta, e o conhecimento m\u00fatuo como m\u00e9todo e crit\u00e9rio (285).<\/p>\n\n\n\n Por Vatican News Service \u2013 IP – SP<\/strong><\/p>\n\n\n\n <\/p>\n\n\n\n FONTE<\/strong>: Site Vatican News Quais s\u00e3o os grandes ideais mas tamb\u00e9m os caminhos concretos para aqueles que querem construir um mundo mais justo e […]<\/p>\n
FOTO: <\/strong>Gerd Altmann por Pixabay<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"