Por: Sebastião V. Castro, Dr*

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O fito maior de um trabalho de gestão de pessoas bem urdido pode ser visto como o desenvolvimento e o fortalecimento da coesão grupal, por conta dos desdobramentos daí advindos. Esta é o ligante que atua na gênese e como mola propulsora de uma boa equipe. Uma equipe coesa, imbuída do carisma, dos valores e princípios da Igreja, torna-se comprometida com a missão e dará o seu melhor para a consecução dos objetivos institucionais.

Examinemos melhor alguns dos elementos presentes nas assertivas acima. Coesão grupal pode ser entendida como um encontro de subjetividades, através do compartilhamento de elementos culturais, de crenças e de vontades, dispostos de modo congruente e orientados para objetivos comuns. Assim, conhecer, explicitar e convidar os membros de um grupo à partilha de tais elementos exerce papel angular na constituição e no fortalecimento da coesão entre os sujeitos de um coletivo.

Para conhecer tais elementos culturais, crenças e valores dos diversos sujeitos, a liderança precisa se colocar em relação empática com eles; precisa, ela própria, desenvolver sua sensibilidade e percepção do outro e do ambiente emocional em que todos atuam; necessita criar momentos formais e informais de encontro, de trocas, de reflexões; urge promover uma atmosfera de respeito, de aceitação e de afetos genuínos para que tais elementos emerjam, ganhem vida, ganhem voz. De modo oposto, o silêncio, a repressão, a pressa, o medo imposto e prevalente no grupo, tudo leva a um desgoverno das relações e ao esgarçamento da coesão. Criar coesão demanda, de parte da liderança e da própria equipe, paciência, coerência entre atos e discursos, bons exemplos, além de relações genuínas entre líder e grupo.

Equipe ou time é uma evolução de um grupo de pessoas que trabalham juntas. Quando encetam trabalhos conjuntos, de modo sinérgico e sintônico, quando constroem vontades comuns em torno de objetivos institucionais, quando se movem de forma harmônica, respeitando os espaços do outro, mas somando-se a cada outro, aí se tem a equipe constituída. Essa será tão mais eficaz quanto maior for a coesão interna e quanto melhor for a clareza quanto ao que deve ser vivido e realizado, concretizando o “sair em missão”.[2]

É papel precípuo da liderança ser a fornalha que produz a chama que a todos anima e estimula e mantém unidos. Essa união interna é a base para a formação das parcerias exitosas, tanto dentro da própria equipe, quanto com parceiros externos. A animação viva e contínua da equipe, compreendendo e acolhendo a diversidade de pensamentos e sentimentos enquanto simultaneamente a todos infunde energia, não permitindo que esmoreçam frente à banalidade ou às adversidades internas e externas, é das competências mais relevantes da liderança.

Também é competência igualmente relevante da liderança trazer para a  equipe, de forma sistemática, séria e intencional, todos os elementos institucionais ligados ao carisma, aos valores e princípios, e aos códigos de conduta valorizados pela instituição, de forma que, ao longo do tempo, tais elementos vão percolando pela equipe;  embeber a equipe dessas parcelas instituintes lhe dará a chance de elaborar internamente a construção conceitual desses elementos, lentamente deles se apropriando. Esse amálgama interno, na pessoa de cada sujeito e no coletivo, se constituirá, também, em ligante, ao mesmo tempo em que passam a ser integrantes, como essência, da equipe e de cada um de seus membros. Essa essência-como-cada-um trará consigo o compromisso, o comprometimento com a missão, podendo superar “a acomodação e o desânimo”.[3]

Compromisso com a missão, pois, só é possível, de forma genuína, quando parte de, quando é a essência construída e amalgamada por cada um e que se eleva, sobressai, da equipe. Não há como falar em compromisso com a missão quando não se tem equipe genuína, quando não se tem coesão, quando não se tem pertença. Assim, é tarefa das mais nobres, da liderança, contribuir e fornecer os elementos para que a equipe construa esse amálgama de elementos instituintes, deixando que esses se assentem bem fundo em seus corações, em cada coração.

Constituída e fortalecida a equipe, a gestão das diversas atribuições do trabalho e das demandas externas adquire leveza, uma vez que, como bem sabemos, a união fortalece; mais ombros estarão disponíveis para carregarem, agora com suavidade e gratidão até, os fardos que eventualmente se apresentem.

Por outro lado, e com clareza da dimensão instrumental da gestão de pessoas,  para que as tarefas sejam bem desempenhadas, importante é que se invista, de forma continuada, no desenvolvimento da equipe. O programa de capacitação deve focar não apenas nas habilidades e competências técnicas de cada membro da equipe, mas igualmente em suas dimensões humanas e pastorais que o façam capacitado para desempenhar, de forma técnica adequada, com confiança e humanidade, as diversas tarefas atinentes ao trabalho na instituição em que labora, como funcionário, ou naquelas para as quais voluntaria. Nesse sentido, nas secretarias paroquiais, por exemplo, é imperioso que os aspectos pastorais sejam colocados acima daqueles administrativos e burocráticos, de modo que a acolhida à pessoa[4] ganhe preponderância.

Seja na congregação, seja na paróquia, seja em outros locais de igreja, o comprometimento com a missão e com a obra que a traduz concretamente só será verdadeiro, forte e genuíno, quando o sentimento de equipe alcançar os níveis mais elevados de compreensão e de apropriação de todos os elementos ligados ao carisma e aos princípios e valores da instituição.

 

*Sebastião Venâncio de Castro é Psicólogo, Biólogo, Mestre e Doutor; Especialista e Docente em Gestão de Pessoas, Diretor do Axis Instituto.

 

(Versão do artigo publicada na Revista Paróquias. Clique abaixo para fazer o download)

Conjunto-Articulado_Sebastiao.pdf (182 downloads)

 

[1] Visita de Deus ou de um deus na residência para testar a hospitalidade humana.

[2] Doc. 100 CNBB, p.10

[3] Doc. 100 CNBB, p. 6

[4] Idem, p.12

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